Com o diferendo EUA-China sem fim à vista e depois de uma tímida investida com o Mate 30 Pro, a Huawei dá o peito às balas com a nova série Huawei P40, procurando desta forma minimizar o impacto da interminável novela, nos resultados das vendas de smartphones.
Sem aplicações nem serviços da Google, a Huawei centrou esforços no desenvolvimento de soluções alternativas. Serão os Huawei Mobile Services (HMS) e a AppGallery respostas à altura daquilo que os consumidores exigem? Terá a nova série P40 argumentos para garantir a escolha do consumidor?
Temos vindo a utilizar o Huawei P40 Pro ao longo das últimas semanas e é com base na experiência adquirida, que iremos procurar responder às perguntas acima apresentadas.
A caixa apresenta o layout a que a marca nos tem vindo a habituar nos últimos anos, com o smartphone em primeiro plano, e por baixo deste, os acessórios.
Auriculares USB-C, cabo USB-C (5A), carregador e uma sempre bem vinda capa de silicone, que poderá ajudar a evitar danos numa queda inesperada. O carregador é compatível com a norma SuperCharge, disponibilizando uma potência de carregamento até 40W, numa relação 10V/4A, tal como apresentado no P30 Pro.
O Huawei P40 Pro
Em termos de design, a Huawei tem-se mantido fiel à suas linhas mestras, com o corpo em metal a receber o ecrã e a traseira em vidro. Em termos de dimensões, não há grandes diferenças face aos modelos lançados anteriormente, com o P40 a surgir mais estreito (0,8mm) e comprido (0,2mm). A espessura aumentou para 8,95mm (8,41mm no P30 Pro, 7,8mm no P20 Pro) e o peso ultrapassa agora as 200g (209g), representando um aumento de 29g em dois anos ( 192g no P30 Pro, 180g no P20 Pro). Uma das diferenças entre a linha P e a Mate, acaba assim por se esbater, com a Huawei a dar preferência a um corpo com maior espessura e peso, ficando acima dos valores apresentados pela concorrência. Tendo em conta a natureza dos materiais utilizados, seria interessante perceber como se distribui o peso pelos diferentes componentes.

A frente apresenta duas novidades. Depois de um notch (P20 Pro) e um furo central (P30 Pro), a Huawei aposta agora num duplo furo à esquerda, que alberga a câmara frontal e de profundidade (IR) e os sensores de luz ambiente e proximidade. De notar a ausência de uma grelha para saída de som, com a coluna para a as chamadas de voz, a estar colocada sob o ecrã.
O ecrã Quad-curve Overflow é outra das novidades, com a Huawei a apostar também numa curvatura em cima e em baixo. Um olhar mais atento revela uma realidade algo diferente diferente, com o ecrã a apresentar uma curvatura mínima nesta zonas (ao contrário das laterais onde esta é bem evidente). A curvatura existe, mas de forma pronuncia apenas no vidro frontal e não no ecrã.
À direita, os botões de volume e power, com este último a apresentar um entalhe a vermelho, que visualmente o permite distinguir dos restantes, algo que não é possível fazer através do tacto, pois o acabamento dos botões não apresenta diferenças significativas, que permitam a sua diferenciação ao toque.
Na lateral superior, que passa a contar com um acabamento arredondado, um microfone e um emissor de infra-vermelhos, para controlo de TVs e equipamentos áudio.
Na lateral inferior, também ela arredondada, o slot para os cartões SIM e NM Card (proprietário da marca), um microfone, porta USB-C e a grelha para saída de som, sendo esta a única coluna utilizada para a reprodução de áudio.
Hardware
Em termos de hardware, a Huawei deu continuidade à política que tem vindo a utilizar já há alguns anos, com o processador da série Mate a equipar os modelos da série P, sendo que neste P40 Pro, temos a versão 5G do Kirin 990 que equipa igualmente o Mate 30 Pro.
Ao contrário do que a Qualcomm apresentou com o Snapdragon 865 com núcleos Cortex A77, a HiSilicon optou por melhorar a eficiência dos Cortex A76, estratégia que de resto tem sido sua prática, aquando da utilização de um nova geração de processador.
O Kirin 990 5G apresenta dois núcleos de alto desempenho Cortex-A76 a 2.86GHz, dois núcleos intermédios igualmente Cortex-A76 mas a uma frequência inferior - 2.36GHz e ainda 4 núcleos Cortex-A55 a 1.95GHz, para as tarefas que necessitam de menor poder de processamento. A GPU continua a cargo da Mali G76, se bem que com um reforço no número de núcleos, que passou dos 10 a 720Mhz (Kirin 980), para 16 a 600Mhz neste Kirin 990.
O ecrã OLED de 6,58", apresenta uma resolução de 2640 x 1200 pixels (~440 ppp), com uma taxa de actualização de 90Hz, uma novidade face ao 60Hz utilizados nos anteriores modelos. Mais uma vez a Huawei mostra-se conservadora, tanto na resolução, como na taxa de actualização. Durante vários anos manteve-se fiel ao FullHD, tendo optado posteriormente por resolução na casa do FullHD+. Agora com a taxa de refrescamento passa para os 90Hz, optando por dispensar (por agora?) os 120Hz que têm sido opção na concorrência.
O armazenamento recebe um upgrade sempre bem vindo, passando a contar com a norma UFS 3.0. No nosso mercado, está disponível a versão com 256GB de armazenamento e 8GB de RAM.
A bateria não sofre alterações face ao apresentado no modelo anterior, com o P40 Pro a contar com os mesmos 4200mAh do P30 Pro. A bateria suporta carregamento rápido SuperCharge a uma potencia máxima de 40W, com o carregamento sem fios a passar dos 15 para os 27W.
O Huawei P40 Pro está certificado com a norma IP68, sendo por isso capaz de resistir 30 minutos debaixo de água, até 1,5 metros de profundidade.
As câmaras, sempre um dos destaques da série P, não deixam os seus créditos por mãos alheias. O arranjo vertical das câmaras traseiras passa agora a ser apresentado num sistema de "ilha" que surge destacado da traseira do smartphone.
Em utilização
Estivéssemos a atravessar um período de normalidade (e não nos estamos a referir ao COVID-19...) e esta secção seria iniciada com um elogio à EMUI, agora na sua versão 10.1. Infelizmente, não é esse o caso, pelo que antes de abordarmos a interface, temos obrigatoriamente de falar naquele que é o actual calcanhar de Aquíles da Huawei Mobile: a ausência dos serviços e aplicações da Google.
Antes de passarmos ao cerne da questão, importa fazer um ponto prévio. Ao longo dos últimos meses, têm surgido na internet vários guias para instalar os serviços da Google nos smartphones da Huawei. Uns mais simples, outros mais complicados, são métodos que podem deixar de funcionar a qualquer momento, ficando o utilizador "apeado". Tendo em conta que os métodos em questão não são suportados pela Huawei e envolvem a instalação de ficheiros de fonte desconhecida, com acesso a permissões para áreas sensíveis, a sua utilização não foi tida em conta nesta análise.
Enquadramento
Sem os serviços e aplicações da Google, a Huawei tem vindo a fazer o seu trabalho de casa, por forma a oferecer ao consumidor, alternativas válidas, que começam desde logo na configuração inicial do equipamento, estendendo-se a diferentes áreas, com o assistente virtual a ser uma das últimas novidades.
No final da configuração inicial, o utilizador tem a opção de migrar os dados de um equipamento Android ou iOS, sendo esta a situação normal para quem esteja a fazer um upgrade. A aplicação Phone Clone já havia por nós sido testada e com o P40 Pro, voltou a mostrar-se eficiente na transferência de jogos, aplicações, fotografias, históricos de chamadas, sms e contactos.
Para a grande maioria dos utilizadores, este será um procedimento que fará com que a ausência da Play Store não seja notada, pois as suas aplicações preferidas, tirando algumas excepções, serão migradas para o novo equipamento, dados incluídos. Ficam a faltar as actualizações e algumas apps da Google, com o GMail e Youtube à cabeça. Para estes dois casos, a Huawei sugere a utilização do serviço via browser, opção que dá acesso ao email e vídeos, mas sem oferecer a mesma experiência de utilização.
Caso o utilizador não tenha um equipamento anterior ou não pretenda utilizar a migração dos dados, a sua vida vai ficar mais complicada. Os contactos terão de ser migrados manualmente, as fotografias ficarão apenas na localização anterior (não sendo este um grande problema...) e as aplicações, essas sim, serão a grande dor de cabeça.
O ecrã principal apresenta cinco pastas com sugestões de aplicações e jogos, divididas por entretenimento, social, lifestyle, jogos e negócios. Em cada pasta, são apresentadas várias opções, havendo ainda mais sugestões na zona inferior do ecrã. Com esta alargada oferta, o utilizador ficará
desde logo com um vasto leque de opções para utilização, o que irá garantidamente facilitar-lhe a vida. Como nenhuma das apps e jogos está instalada, quem não pretenda utilizar as sugestões, terá apenas de apagar as pastas em questão.
A AppGallery mostra-se já bem mais recheada, com a Huawei a estabelecer acordos locais, por forma a garantir as aplicações mais utilizadas em cada país.
Os grandes nomes começam a aparecer listados para instalação, mas há casos como os do Facebook e WhatsApp, em que o utilizador é encaminhado para o site oficial, onde pode descarregar a aplicação para instalação manual. Não sendo um processo complicado, por certo que irá causar alguns problemas aos utilizadores menos experimentados.
Com o número de aplicações a crescer a cada mês que passa, a AppGallery tem ainda um longo caminho a percorrer, faltando ainda aplicações importantes no seu catálogo. O utilizador pode sempre sugerir jogos e aplicações a serem incluídos nesta loja da Huawei, ficando com uma secção na gestão de perfil, onde pode consultar os histórico das sugestões apresentadas.
Instagram e Revolut são duas das ausências na AppGallery, sendo que no caso do primeiro, a AppGallery devolve várias propostas, sem que nenhuma seja efectivamente a aplicação para acesso ao Instagram. A quantidade de opções acaba assim por pecar pela qualidade dos conteúdos apresentados, ficando o utilizador limitado à
webapp.
Esta variedade de oferta é transversal a todas as pesquisas. No caso do Revolut, deparámos-nos com uma situação deveras curiosa, para a qual já havíamos alertado há algum tempo. A
AppSearch está ainda a ser testada, mas se pesquisarem por Revolut na AppGallery, irá ser apresentada uma sugestão que encaminha o utilizador para o site ApkPure. Este site faz parte das opções da solução que está em teste e tal como o ApkMirror, é um agregador de jogos e aplicações, sendo possível encontrar a grande maioria dos jogos e apps mais conhecidos.
Ambos os sites possuem uma app para facilitar a instalação dos jogos e aplicações, sendo que no caso do ApkPure a solução está mais desenvolvida, informando o utilizador, sempre que existir uma actualização disponível para o que este tiver instalado. De referir que a Huawei disponibiliza um serviço opcional, que efectua uma inspecção de segurança a aplicações com origem em terceiros. Será sempre um garante extra de segurança, que terá no entanto um alcance limitado, pois não é conhecida a amplitude da verificação que é efectuada antes da instalação de apps e jogos.
A estas duas soluções não oficiais e diga-se,
sem qualquer garantia de segurança, junta-se uma outra, esta sim oficial, com a App Store da Amazon a ser uma alternativa de peso, que por isso mesmo deverá ser sempre tida em conta.
Opções não faltam e há ainda o open source, onde o
NewPipe se constitui como uma excelente alternativa à app do YouTube, estranhando-se por isso o facto de a Huawei ainda não a ter na sua AppGallery. Esta variedade de opções acaba contudo por ser uma solução de recurso, a qual fica sempre algo a dever ao que o Google Play disponibiliza.
Mesmo depois de se escolher a opção manual, a pergunta volta a ser colocada na actualização seguinte.
Com as frequentes actualizações e adição de novos conteúdos, é de crer que a AppGallery e os Huawei Mobile Services possam a médio prazo ser uma alternativa válida ao Google Play, até porque a Huawei está a replicar a maioria dos serviços que a Google disponibiliza: Music, Video, Photos, Cloud (onde as fotos pesam no armazenamento....) e Assistant, sendo que nem todos estão disponíveis a nível global. É uma opção que se compreende e aceita, mas está longe de ser a melhor opção para todas as partes, com a Huawei a ter de empenhar recursos em áreas onde a Google dá cartas, quando poderia aplicar os mesmos no desenvolvimento de soluções onde a oferta é diminuta.
Há contundo ainda um longo caminho a percorrer, com a EMUI a apresentar falta de evolução, havendo mesmo em algumas situações, retrocessos. O Launcher continua a não apresentar as aplicações mais utilizadas, mantendo-se a opção pelas últimas a serem executadas e a App Assistant, que reúne funcionalidades como o GPU Turbo, desapareceu misteriosamente na EMUI 10, voltando a estar disponível na EMUI 10.1. Mais curioso ainda, foi a App Assistant deixar de identificar o Clash Royale como um jogo a poder tirar partido das funcionalidades disponíveis, tendo o utilizador de o adicionar manualmente. Esta situação poderá dever-se à origem da App (Google Play) com o sistema a não a reconhecer automaticamente, algo que acontece também com a aplicação Ai Life da Huawei, a qual foi migrada com o Phone Clone e a App Galery permite a instalação da mesma, não reconhecendo a que esta já está instalada.
É possível passar sem Google Play e Google Services?