Crimes e escapadelas (num triângulo da tristeza)
19-03-2026 | 17:28 | Gonçalo Sá
A nova minissérie da HBO Max traz tanto de reconhecível como de inesperado, propondo um olhar sobre triângulos amorosos e crises de meia-idade com uma tragédia misteriosa pelo meio. Exemplo de uma aposta que se estranha antes de se entranhar, "DTF ST. LOUIS" é das estreias televisivas do ano a ter debaixo de olho.

Não convém desistir logo ao primeiro episódio, demonstra a combinação de drama, thriller e comédia negra criada, escrita e realizada por Steven Conrad (autor de séries pouco vistas em Portugal, como "Patriot" ou "Perpetual Grace, LTD", que também trabalhou como argumentista para cinema em "O Homem do Tempo", de Gore Verbinski, ou "A Vida Secreta de Walter Mitty", de Ben Stiller).
"DTF ST. LOUIS" nem começa particularmente mal, entenda-se, mas a secura com que retrata o quotidiano pardacento de um trio de protagonistas arrisca-se a ser confundida com uma escrita que olha as suas personagens de cima, até porque não se escusa a expô-las ao ridículo.

Os dois capítulos seguintes, embora não travem situações absurdas ou insólitas, revelam outra consistência ao juntarem ao sarcasmo uma maior complexidade emocional - algo inesperada quando o cinismo parecia ser o condimento-chave desta aposta de sete episódios ambientada numa localidade fictícia nos arredores de St. Louis, Missouri.
Assente na rotina de dois amigos de meia-idade que tentam fugir ao tédio dos seus casamentos ao se registarem numa aplicação de encontros (que dá título à minissérie), a história complica-se quando um deles se envolve com a mulher do outro. Mas a comédia, já de si desencantada, também dá lugar à tragédia através de uma morte repentina que vai lançar dúvidas no espectador sobre quem são e o que faz mover as personagens de David Harbour, Jason Bateman e Linda Cardellini.

Se o mergulho numa traição conjugal orientado por uma narrativa não-linear pode trazer lembranças de uma série como "The Affair", Steven Conrad reclama um território próprio, do recurso astuto e regrado ao humor embaraçoso à predilecção pelos azuis e sépia da fotografia, passando pela forma franca e avessa a julgamentos como se centra nos contornos da cumplicidade masculina ou nas vastas possibilidades e idiossincrasias do desejo sexual. E num elenco no qual se destacam ainda o veterano Richard Jenkins ou um Peter Sarsgaard como nunca o vimos, David Harbour encarna uma das personagens mais singulares da televisão dos últimos tempos: um "gigante gentil" tão sincero como atabalhoado cujo peso emocional é decisivo para que "DTF ST. LOUIS" se torne mais intrigante (e surpreendentemente apaixonante) de episódio para episódio.
"DTF ST. LOUIS" estreou-se na HBO Max a 2 de Março. A plataforma de streaming estreia novos episódios aos domingos.

































