A casa sem papel
Há uma nova série espanhola no streaming, e não parece ser só mais uma da vasta produção de nuestros hermanos. Recém-chegada à HBO Max, "RAVALEAR" junta drama familiar, thriller e realismo social em Barcelona - mas não era difícil imaginá-la na Lisboa gentrificada destes tempos.

Depois de ter tido honras de estreia na mais recente edição do Festival de Berlim, em Fevereiro passado, "RAVALEAR" chegou sem grande alarido ao streaming, há poucos dias, e pode muito bem ser das séries que vão marcar o semestre.
Criada por Pol Rodríguez e coridirigida por Isaki Lacuesta, dois realizadores pouco divulgados nas salas portuguesas mas já com uma carreira no cinema premiada nos Goya (os "Óscares espanhóis"), inspira-se na história familiar do primeiro e essa matriz ajudará a explicar a impressão realista tão bem desenhada logo nas primeiras cenas.
Do recurso à câmara à mão à montagem ágil e engenhosa, passando pelo sentido de espaço - no caldeirão cultural do bairro Raval, em Barcelona -, não demora distanciar-se do estilo publicitário e impessoal de subprodutos como "La Casa de Papel" e outros enlatados da produção televisiva espanhola da era do streaming.

Por outro lado, o primeiro contacto com esta história de seis episódios talvez sugira uma comparação tentadora com a norte-americana "The Bear" (disponível no Disney+), a mistura de drama e comédia que se tornou um sucesso surpreendente nos últimos anos.
Afinal, "RAVALEAR" também nasce de um impasse em torno de um restaurante: no caso, Can Mosques, estabelecimento centenário ameaçado pela tentativa de compra por parte um fundo de investimento. Os protagonistas da série arriscam-se a ser despejados ou a pagar uma renda exorbitante para continuarem a explorar um negócio que é mais do que isso: afirma-se como coração da dinâmica familiar e componente essencial da identidade do bairro.
Mas se a forma trepidante e por vezes tensa como os realizadores captam o dia a dia na cozinha fará pensar em "The Bear", a acção não passa assim tanto tempo no restaurante. O retrato alarga-se à comunidade local e não prescinde de migrantes de várias origens para se atirar a tensões da Europa contemporânea.

A gentrificação de Barcelona, principal responsável pelo conflito dramático de "RAVALEAR", não está longe da que tem atormentando Lisboa, e nesse sentido este olhar tem tanto de particular como de universal. Mesmo que o "salero" do elenco, garantido por nomes como Enric Auquer, María Rodríguez Soto, Francesc Orella ou Sergi López, seja, naturalmente, muito espanhol.
O efeito imersivo desta ficção ancorada na realidade completa-se com a participação de actores não profissionais (a maioria estrangeiros) e com instantes que captam, de forma próxima do documentário, o quotidiano das ruas de Raval. E a banda sonora de Eloi Caballé, que cruza música electrónica e sons locais, também tem o seu peso na força sensorial destes primeiros episódios inesperadamente promissores.
"RAVALEAR" estreou-se na HBO Max a 22 de Maio. A plataforma de streaming estreia novos episódios às sextas.
























