E não é que o mundo de "The Boys" ainda consegue surpreender? "GEN V", o primeiro spin-off em imagem real da série de culto da Prime Video, mantém o atrevimento fervilhante e tempera-o com algumas doses de coração (mesmo que prometa rebentar a qualquer altura). Os três primeiros episódios são um convite sério ao binge-watching.

Depois da (suculenta) antologia de animação "The Boys Presents: Diabolical", estreada no ano passado, o universo da BD criada por Garth Ennis e Darick Robertson volta a expandir-se no pequeno ecrã. "GEN V", a segunda série derivada de "The Boys", afirma-se como mais uma bem-vinda incursão numa saga em que a maioria dos super-heróis terá um décimo da nobreza dos clássicos da Marvel ou da DC (numa perspectiva optimista), embora a protagonista desta nova aventura até se guie por um idealismo pouco habitual nestas paragens.
Marie Moreau descobriu as suas capacidades especiais (manipular sangue) da pior forma, mas está decidida a utilizá-las para um bem maior: a personagem no centro deste spin-off quer ser a primeira super-heroína negra a integrar a equipa dos Sete, um equivalente (muito) distorcido da Liga da Justiça. Só que ao contrário da série original, "GEN V" até lembra mais sagas da BD como a dos X-Men (ou a tão esquecida como saudosa Gen¹³), ao se concentrar num grupo de estudantes da primeira universidade dedicada a jovens com superpoderes. A instituição esconde, claro, um segredo terrível (como parece esconder qualquer grande entidade deste mundo, começando pela dominante Vought International), e desvendá-lo vai começar a tornar mais complicado o quotidiano da protagonista e de alguns colegas.

A primeira sequência não engana: sangrenta e ultraviolenta, de uma forma particularmente bizarra, mostra que estamos no território inconfundível de "The Boys". E o mesmo pode dizer-se de uma cena de sexo delirante, a ultrapassar mais uma vez a linha do bom gosto, que só poderia acontecer entre seres superpoderosos deste universo (nunca a veríamos, por exemplo, numa história do Homem-Formiga).
Momentos como esses não serão, no entanto, grande novidade para quem já está familiarizado com a visão corrosiva de Eric Kripke, que desta vez partilha a autoria da série com Craig Rosenberg e Evan Goldberg - Michele Fazekas e Tara Butters, ambas vindas do filão "Lei & Ordem", são as showrunners. Mais surpreendente é ver esses códigos num relato da entrada na idade adulta feito com uma carga emocional algo inesperada, que equilibra o cinismo vindo da série-mãe. "GEN V" também faz mira ao capitalismo exacerbado, ao racismo ou ao machismo, mas a partir de um perigoso conflito de gerações, colocando-se, para já, do lado dos filhos (cuja vida foi determinada pelos pais sem o seu consentimento ou sequer conhecimento).

Se por um lado esta opção leva a que não haja nenhum protagonista que os espectadores adorem odiar, capaz de roubar qualquer cena como Homelander faz em "The Boys" - o Golden Boy de Patrick Schwarzenegger ameaça ser um sucessor, mas o argumento mete-o noutros caminhos e a comparação com o desempenho certeiro de Antony Starr não o favorece -, há pelo menos uma personagem memorável: Emma Meyer (AKA Grilinho), a oferecer o maior capital de simpatia, e a interpretação sensível de Lizze Broadway não esgota, felizmente, esta estudante e celebridade virtual ansiosa no alívio cómico.
Jaz Sinclair revela-se segura como Marie, candidata a super-heroína mais ambígua do que parece à partida, e Chance Perdomo e London Thor também se destacam numa jovem equipa nascida de improviso. A acompanhá-los estão alguns veteranos de "The Boys", em participações especiais, que ajudam a reforçar a ponte com a saga matriz e trazem valor acrescentado a quem já a viu. Mas outro dos trunfos de "GEN V" é que esta história também pode ser vista por iniciados sem que se percam pelo caminho - uma vantagem face a muitas sagas férteis em spin-offs, prequelas ou sequelas -, que provavelmente ficarão tentados a descobrir o que está para trás...
Os três primeiros episódios da primeira temporada de "GEN V" estão disponíveis na Prime Video desde 29 de Setembro. A plataforma da Amazon estreia novos capítulos todas as sextas-feiras.